Quem é o Justin Bieber da web3?

Garagem.vc
5 min readJul 4, 2023

Recebemos um feedback do Helcio, leitor da nossa newsletter (e parceiro, e cliente, e amigo). Diretor de conteúdo de um grande grupo de comunicação, o Helcio está por dentro do conceito de comunidade web3, tema central das nossas conversas por aqui. No entanto, ele nos trouxe uma percepção sincera: não consegue identificar nenhuma aplicação prática no curto prazo.

Para responder ao Helcio e pensarmos juntos, vamos olhar para o caso do músico Daniel Allan, que buscava o seu lugar ao sol na cena da música global quinze anos depois de Justin Bieber estourar no YouTube, ser contratado por uma gravadora e se transformar em um dos maiores fenômenos da cena pop.

Quando Daniel Allan decidiu fazer o seu álbum Overstimulated, ele poderia ter seguido os passos do Bieber — passar meses ou até anos criando e lançando o seu conteúdo de graça nas redes sociais, na esperança de eventualmente construir uma base de fãs grande o suficiente para financiar seu trabalho em tempo integral e, quem sabe, um dia escalar ao topo das paradas de sucesso, com ajuda de uma gravadora.

Em vez disso, Daniel escolheu um caminho diferente. Ele financiou seu novo álbum com a venda de tokens no Mirror e arrecadou 72 ETH em 24 horas (cerca de 136 mil dólares na época) de 87 apoiadores para bancar a criação de sua música. O projeto foi estruturado como um contrato de gravadora, mas os direitos pertenceriam a seus fãs e à comunidade. Em troca do que investiram, os donos dos tokens receberam uma participação de 50% nos lucros do artista — e uma linha direta com o próprio Daniel. “Pela primeira vez, eu era o dono de toda a música que estava lançando, e as pessoas estavam atribuíram um valor real à minha arte”, escreveu ele, em sua página no Mirror.

Creators nativos da web3, como Daniel, são a vanguarda de um novo modelo para a “creator economy”. Tokens representam uma poderosa ferramenta para os creators construírem audiências e alavancarem capital por bootstrapping, ou seja, com recursos próprios. Em vez de criar conteúdo gratuitamente com a esperança de fazer crescer aos poucos uma audiência e, um dia, ser capaz de monetizá-la, os criadores agora são capazes de se capitalizar e construir uma comunidade antecipadamente através de tokens — e então usar esse dinheiro e essa base de fãs para produzir conteúdo e expandir seus negócios.

Em outras palavras: a web3 inverteu o modelo tradicional de criação de conteúdo online. É uma mudança de paradigma que terá implicações significativas em como o trabalho dos creators é realizado, como os seguidores se relacionam com o trabalho deles e como o ecossistema mais amplo de creators funciona como um todo.

Esta não é a primeira vez que o modelo de negócio dos criadores de conteúdo é “disruptado”. Antes da internet, os criadores concebiam seu conteúdo e, em seguida, o apresentavam a instituições como gravadoras, editoras de livros e estúdios de TV., que tinham o poder de decidir o que seria produzido. Eles, então, cediam um controle criativo significativo e uma parcela substancial dos ganhos futuros em troca de financiamento inicial e distribuição de seu trabalho.

Com o surgimento das plataformas de conteúdo gerado pelos usuários da Web 2.0, se descortinou um novo caminho para o trabalho criativo. Os produtores de conteúdo puderam publicar seu trabalho online em plataformas como YouTube, Instagram e TikTok, e atingir o público diretamente. À medida que sua audiência crescia, vários caminhos de monetização se tornavam disponíveis, incluindo publicidade, patrocínios, assinaturas e venda de merchandising, como canecas e camisetas.

No modelo da Web 2.0, os creators são capazes de manter a propriedade criativa de seu trabalho, mas enfrentam um longo caminho para a viabilidade financeira. Eles investem quantidade considerável de tempo e esforço na criação de conteúdo — sem saber quando ou se verão algum retorno. Essa dinâmica contribuiu para o burnout dos grandes creators e representa uma enorme barreira de entrada para os novatos.

Em outras palavras, os creators que trabalham na Web 2.0 enfrentam, como chamamos aqui na Garagem, o “desafio do motor de arranque”: para ganhar dinheiro, eles precisam ter uma audiência, mas para aumentá-la, eles precisam ter recursos para financiar a criação de conteúdo.

Ao inverter o modelo de negócio do creator da Web 2.0, a web3 supera o problema do motor de arranque. Em vez de começar criando conteúdo gratuito na tentativa de erguer uma grande base de fãs que pode ser monetizada posteriormente, os criadores da web3 dão o pontapé inicial monetizando através da criação de um token. Isso atrai uma comunidade de fãs-proprietários interessados no potencial de valorização, que vem da posse de um ativo. O criador pode então usar o financiamento inicial e os participantes da venda do token para “bootstrap” o seu trabalho criativo. Os fãs-proprietários passam aí a ter participação real para ver aquele criador ter sucesso e são incentivados a atuar como evangelistas do creator e de seu trabalho. Isso dispara o ciclo virtuoso de criação de conteúdo, crescimento da comunidade e monetização.

A chave para este novo modelo é a escassez digital: à medida que o creator se torna mais conhecido ou bem-sucedido, o token se torna mais procurado e valioso.

A web3 não está apenas mudando as estruturas de receita, como também está forçando uma mudança na forma como os creators formam suas equipes. Em vez de uma empresa de gerenciamento tradicional ou uma network, Daniel Allan conta com um gerente de projeto cuidando da tokenomics, um community manager e colecionadores, muitos dos quais podem ser considerados investidores com participação em sua música através do projeto Overstimulated.

Nos seis meses seguintes do lançamento do seu álbum, sua equipe experimentou quase todas as estratégias na web3. Allan lançou três faixas de edição limitada através do Sound.xyz e uma coleção de generative music. E fez crowdfunding para por de pé um “songcamp” em Miami e colaborar com outros artistas. No total, entre erros e acertos, Allan estima que gerou cerca de 320 ETH (606 mil dólares nos valores de hoje) em todos os projetos.

Assim como a Web 2.0 não colocou um ponto final no modelo dos publishers tradicionais, como gravadoras e editoras, a web3 não substitui completamente a creator economy da Web 2.0. Em vez disso, abre possíveis caminhos para os criadores, o que resultará em uma economia criativa mais forte e equilibrada.

E como construir audiência se tornou fundamental para qualquer empresa que queira ser relevante, nós acreditamos que esse mesmo modelo de financiamento usado pelo Daniel pode também ser aplicado para alavancar startups e projetos em áreas diversas, para muito além da indústria criativa. O campo é infinito.

Vamos juntos.

Abs,

Gustavo Fortes, Leo Cardoso, Leo Carbonell e Ricardo Schneider.

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